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Arquivo / Amanajeh · 01.08.2021

Inovação e futuros distópicos

Imagem de capa do texto

POR RICARDO A. PALMIERI - 01 DE AGOSTO DE 2021.

FONTE IMAGEM DA CAPA: The Intercept

“hoje em dia, é mais fácil imaginar o fim do mundo, do que o fim do sistema em que vivemos”

prof.a Maria Elisa Cevasco – FFLCH-USP

[mídia externa do texto original: https://drive.google.com/file/d/1hE8tMPLtx7UwY7J4kktBAyHL6mLD0Kvf/preview]

ouça o texto. tempo estimado: 9min.

Como falar de inovação e pós-crescimento sem voltar os olhos para o futuro? Entre notícias de furacões, tempestades, queimadas e enchentes que populam quase que diariamente os noticiários – com um aumento desses desastres de forma assustadora nos últimos anos, a humanidade segue com sua ânsia de mudanças positivas, mas sem saber quais rumos devem ser tomados para a efetivação destes desejos.

O artigo referência para esse ensaio, “Disrupting climate change futures: Conceptual tools for lost histories” trata dessa questão, a partir da comparação das literaturas da bielorrussa Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de Literatura em 2015, com a da escritora canadense Margaret Atwood conhecida pelo livro transformado em série “O conto da Aia” (Handmaid´s Tale). Como ponto de convergência, os autores fazem essas leituras sob a ótica conceitual do filósofo Walter Benjamin.

A partir dessa comparação com base no pensamento fundamental de Benjamin, os autores do artigo utilizado como referência exploram como as escritoras utilizam em sua expressão, de formas distintas, os acontecimentos do passado para explicar os disruptivos acontecimentos do presente, abrindo espaço para a criação de narrativas cheias de distopias apocalípticas e de adaptações tecnológicas desenvolvidas pela humanidade, em busca de permanência e sobrevivência. Como resultado dessa análise, os autores trazem o conceito de "esperança sem otimismo". Uma ótima forma de olhar para frente, tomando cuidado para que as tragédias do passado não se repitam.

Voices from Chernobyl - International Trailer 

The Handmaid's Tale | Trailer oficial legendado

Partindo do texto base, pode-se afirmar que episódios de distopia estão cada vez mais presentes nas expressões culturais e entretenimento, principalmente no cinema. Futuros opressores vêm se tornando grandes sucessos comerciais. Neste ponto, parece essencial entender de forma mais profunda a origem dos termos UTOPIA e DISTOPIA, e suas diferenças.

O termo UTOPIA surge na contração de “u”, uma partícula negativa no idioma grego, e “topos”, também de origem grega. Desse modo a utopia é uma referência para um não-lugar, algo que já não existe, desde sua etimologia. O termo entrou para o imaginário popular a partir de 1516, pelo estadista e escritor britânico Thomas Morus.

Já o termo DISTOPIA surge a partir do pensador John Stuart Mill. Em 1868, depois da Revolução Industrial e dos avanços tecnológicos advindos desse período, Mill sentiu a necessidade de uma palavra que desse conta de explicar a inversão dos valores utópicos de Morus neste período industrial. Apesar de obras do século XVIII já apontarem esses caminhos com visões distópicas (por exemplo “As viagens de Gulliver” de Jonathan Swift, 1726), é no século XX que a literatura do gênero ganha força, especialmente após a segunda guerra mundial.

Neste cenário caótico, onde a fragilidade da vida perante aos sistemas de poder fica mais evidente, é onde floresce os grandes clássicos da literatura com enredos e mundos distópicos. Sucessos como “A máquina parou” de E. M. Fosters (1909), “Nós” de Yevgeny Zamyat (1924), “Admirável mundo novo” de Aldous Huxleys (1932), “1984”, de George Orwell (1949), “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury (1953), “Laranja mecânica” de Anthony Burgess (1962), “Androides sonham com ovelhas elétricas” de Philip K. Dick (1968) e “Neuromancer” de William Gibson (1984) vão se tornar as grandes referências do gênero.

A humanidade desde então tem consumido cada vez mais seu pífio destino em forma de ficção. As notícias diárias são tão ruins que, quando assistidas, parecem com algo já visto em um livro ou filme. Sem dúvida, a aceleração da tecnologia e dos noticiários, causam um estranhamento da realidade e reforçam a sensação de impotência no processo de mudanças positivas da sociedade.

Para a psicologia, nosso pensamento é moldado por um quando e por um onde – tempo e espaço (PEREIRA, 2011). As visões de futuro apresentadas pela ideia de distopia na literatura e no cinema, são apenas uma repetição das adversidades do presente. Desse modo, nos mantemos em um ciclo infernal, uma eterna iteração das agonias vivenciadas no cotidiano.

Uma lista interessante dessas óticas distópicas é a dos principais filmes produzidos nos últimos 100 anos pelo cinema internacional. O cinema possui a capacidade de facilitar o acesso em termos de tempo, produzindo versões fast-food dos livros clássicos, que podem ser consumidos em pouco mais de duas horas de atenção do espectador. Abaixo segue uma lista com quase 70 obras clássicas do cinema universal:

[mídia externa do texto original: https://docs.google.com/spreadsheets/d/e/2PACX-1vTS3gemshVt84DM1FyB7YwJI3Q1ZbbWaY55U1wcNuER1ksgWvAhYKTyFeVvNmE-Lsvg7q61qxOKZk--/pubhtml?gid=837445745&single=true&widget=true&headers=false]

Para finalizar, peço licença para escrever em primeira pessoa, e colocar um destaque particular de obra distópica que acredito ser de grande relevância dentro desse recorte entre inovação e distopia. Idiocracia, com roteiro de Mike Judge e Ethan Cohen (2006), foi produzido com uma ideia de comédia e ficção científica. Partindo de uma visão crítica da sociedade estadunidense, a obra mostra como ao invés de melhorar, a sociedade entra em total decadência em um período de 500 anos.

[imagem externa do texto original indisponível offline]

IDIOCRACIA dublado - Trailer

Em 2020, a revista Insider publicou um artigo demonstrando sete pontos que relacionam as visões de inovação tecnológica apresentadas neste filme que já se tornaram realidade na sociedade de consumo atual. A forma como o mercado se apropria de ações que deveriam ser de responsabilidade de políticas públicas, como a ideia de marcas já se misturarem com a identidade de pessoas públicas e o aumento exponencial do uso de alimentação de baixa qualidade nas refeições das pessoas, são o grande destaque desta reportagem.

Referências:

  • DE COCK, Christian; NYBERG, Daniel; WRIGHT, Christopher. Disrupting climate change futures: Conceptual tools for lost histories. Organization, [S. l.], v. 28, n. 3, p. 468–482, 2021. DOI: 10.1177/1350508419883377.
  • PEREIRA, R.. O espaço e o tempo como intuições puras: um estudo acerca dos argumentos presentes nas exposições metafísicas da “Estética Transcendental”. Ensaios Filosóficos, Volume III – abril de 2011. Disponível em: http://www.ensaiosfilosoficos.com.br/Artigos/Artigo3/Romulo_Pereira.pdf 
  • VAIANO, Bruno. Como reconhecer uma distopia? Revista Galileu. Novembro de 2016. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2016/11/como-reconhecer-uma-distopia.html. Acesso em: 31 jul. 2021.
  • JIANG, Irene. 7 retail-related ways the world we live in is like the dystopian future from “Idiocracy”, and 1 notable way it isn’t. Julho de 2020. Disponível em: https://www.businessinsider.com/7-ways-the-world-is-like-idiocracy-retail-edition-2020-7. Acesso em: 1 ago. 2021.

Texto originalmente publicado no blog Amanajeh, braço editorial do projeto Noisetupi.

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