Arquivo / Amanajeh · 19.07.2021
Inovação, produtivismo e a precarização do trabalho

POR RICARDO A. PALMIERI - 05 DE JULHO DE 2021.
FONTE IMAGEM DA CAPA: Vitor Teixeira
“Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.”
Friedrich Nietzsche
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A partir do texto base “Glimpses of resistance: Entrepreneurial subjectivity and freelance journalist work” da professora e pesquisadora Maria Norbäck da Universidade de Gothenburg na Suécia, é possível entender de forma bem detalhada as discrepâncias entre o discurso neoliberal e a realidade enfrentada por trabalhadores do setor de comunicação na sociedade sueca.
Enquanto na economia pós-industrial o mercado tenta cultivar os ideais de valorização do reforço à competição, a auto-responsabilidade e a autonomia laboral como caminho do sucesso, os trabalhadores que compram e tentam se adaptar à esse discurso perecem de inúmeras formas, na tentativa de se manterem minimamente em dia com sua saúde e finanças pessoais. Essa situações foram exploradas pelo diretor Ken Loach em seu filme “Você não estava aqui”, de 2020.
Este estudo sueco traz uma análise qualitativa e quantitativa apresentando as formas como os trabalhadores freelancers criam estratégias para sobreviver neste cenário. Com o estabelecimento de critérios éticos, esses trabalhadores se organizam com uma forma de resistência, buscando reduzir a ideia de competição e aumentando o senso de colaboração entre outros freelancers.
Outra forma de reagirem ao establishment do mercado, é a adoção de políticas de redução de jornadas e a recusa por novos projetos. E mesmo quando algumas dessas estratégias não se sustentam, muitos profissionais tendem a realizar suas entregas com uma qualidade reduzida, como forma de protesto principalmente em áreas onde jornalistas costumam ser muito mal pagos - geralmente nos campos da arte e da cultura.
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frame do filme “Você não estava aqui”. Direção de Ken Loach. fonte: youtube.com
É interessante ressaltar que dentro dos pilares do neoliberalismo, a busca por inovação é um dos motores de propulsão para seu avanço. Principalmente quando o tema é a desregulamentação do mercado de trabalho, visando o aumento da produtividade e o lucro. Aqui podemos fazer um recorte para entender como a palavra inovação, desde a sua gênese, está relacionada com esse ideal.
Segundo Benoît Godin, a palavra inovação surge da criação de uma nova forma de trabalho, os primórdios da parceria público-privada. Devido à escassez de mão de obra para a coleta de prata nas minas atenienses, no século V, o pensador Xenófanes de Cólofon propôs a oferta de cidadania ateniense para os estrangeiros que pudessem dispor de seus escravos (privados) para trabalharem nas arrecadação do minério nas minas públicas. Por conta da nova forma de realizar os cortes nas paredes da mina, surge a palavra καινοτομία, que foi levada para o latim como innovatio - fazer diferente do padrão anterior, chegando até nossos dias como o termo inovação. Para Xenófanes, a inovação foi "introduzir mudanças na ordem estabelecida". A partir desse relato, podemos pensar que inovação é um termo em disputa política há mais de 2000 anos.
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frame do vídeo “o que é inovação?” por Ricardo Ruiz. Fonte: youtube.com
Interessante pensarmos nessa relação sobre como o discurso da inovação, atualmente dentro do ideal neoliberal, raramente calcula os efeitos colaterais aplicados sobre as pessoas, principalmente as que estão nas pontas, que realmente fazem acontecer esse desenvolvimento produtivista. Mas como é possível relacionar este cenário com o quadro existente em nosso país?
Em 2017 o Brasil passou por uma reforma trabalhista que alterou mais de 200 pontos de sua legislação. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,5 milhões de brasileiros estão desempregados atualmente. Com a falsa promessa de ser uma “vacina” contra a diminuição da oferta de vagas, a proposta de reforma atendeu a interesses do mercado financeiro e dos empresários, segundo o analista político Marcos Verlaine, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Desse modo, no contexto da flexibilização do trabalho, da implantação de políticas neoliberais e do aumento do desemprego, a definição de empreendedorismo vem ganhando novos significados políticos. Um exemplo cotidiano de como essa depreciação vem ganhando escala, é a chamada Economia do Compartilhamento, que pode ser vista tanto com entregadores que trabalham por aplicativos de compras e comidas (Ifood, Rappi, Uber Eats, entre outros), como no caso dos trabalhadores da mobilidade urbana (Uber, 99, etc..). Essa depreciação pode ser vista em documentários como “Autogerenciamento Subordinado”, “Vidas Entregues” e “Pandelivery”.
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Da figura do empresário agente inovador schumpeteriano, que rompe com os padrões da produção, sendo portador não só de criatividade, ousadia, ideias e disposição para assumir riscos, mas também de capital para tal ação, entra em cena o autogerenciamento subordinado, que cria um reconhecimento do próprio sujeito como empresa de si.
A ideia desse autogerenciamento subordinado causa a apropriação das estratégias de sobrevivência, da administração do tempo e do conhecimento do trabalhador por agentes privados, que determinam como o chamado “colaborador” deverá ser remunerado. Estes trabalhadores, sem nenhum tipo de vínculo, segurança, ou garantia mínima de ganhos, estão subordinados e controlados por novos meios que operam através de automatizações em dimensões gigantescas de extração e processamentos de dados, inserindo neste jogo novas forma de gerenciamento, controle e vigilância do trabalho através de algoritmos.
Voltando ao foco do nosso texto base, é interessante ressaltar como os trabalhadores da imprensa nacional conseguem inovar trabalhando fora dos grandes veículos de informação, ao mesmo tempo que garantem auto sustento - ou sobrevivência, informação de qualidade utilizando algumas estratégias. Andresa Kikuti faz uma leitura sobre os jornalistas brasileiros durante a pandemia no seu artigo “Jornalistas e precarização do trabalho: sofrimento diante de um importante papel social”, para o Observatório da Imprensa.
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frame do vídeo “Seu trabalho será Uberizado”, por Meteoro Brasil. fonte: youtube.com
Ao trabalharem com a veiculação de informação através das redes sociais como instagram e facebook, canais no youtube e sites próprios, é possível elencar uma gama de jornalistas independentes que vêm ganhando popularidade por conta tanto da qualidade de suas reportagens e investigações, como também, pela frente ampla de resistência que realizam perante à enxurrada de fake news empurradas goela à baixo via redes sociais (veja o texto que falamos sobre a era da pós-verdade). Nesse processo, estes jornalistas e seus veículos independentes trazem à tona a verdade, sempre comprovada através de fatos.
Abaixo, segue uma lista com alguns desses veículos sérios, liderados muitas vezes por profissionais demitidos de grandes conglomerados de comunicação, por não terem espaço (ou terem desagradado personalidades influentes nesses meios) para publicar temas tidos como polêmicos.
No site da Agência Pública, cuja ideia é a de “mapear as iniciativas independentes no Brasil”, é possível encontrar uma série de outros serviços independentes de comunicação jornalística com qualidade. A maioria, ou quase a totalidade desses projetos sobrevivem de doações ou assinaturas de seus leitores.
Contribuir com essas iniciativas, além de garantir a sobrevivência de informações que fogem do status quo das notícias viciadas entregues pelos grandes meios e conglomerados, permite que, como leitores, possamos ajudar em um processo de inovação.
Inovação não com o mesmo olhar de fazer diferente mantendo os interesses econômicos schumpeterianos, mas sim, de ressignificar a forma de produzir através de uma estratégia de decrescimento, fortalecendo mais as redes e conexões entre pessoas, e menos os ideais de precarização do trabalho humano.
Referências:
- NORBÄCK, Maria. Glimpses of resistance: Entrepreneurial subjectivity and freelance journalist work. Organization, [S. l.], v. 28, n. 3, p. 426–448, 2021. DOI: 10.1177/1350508419889750.
- Maria Norbäck | University of Gothenburg. [s.d.]. Disponível em: https://www.gu.se/en/about/find-staff/marianorback. Acesso em: 19 jul. 2021.
- PRINCÍPIOS, Revista. Os fundamentos da ofensiva neoliberal. [s.d.]. Disponível em: https://revistaprincipios.com.br/artigos/39/cat/1689/os-fundamentos-da-ofensiva-neoliberal-.html. Acesso em: 19 jul. 2021.
- SVEIBY, Karl-Erik; GRIPENBERG, Pernilla; SEGERCRANTZ, Beata (ORG.). Challenging the Innovation Paradigm. 0. ed. [s.l.] : Routledge, 2012. DOI: 10.4324/9780203120972. Disponível em: https://www.taylorfrancis.com/books/9781136324536. Acesso em: 19 jul. 2021.
- GODIN, B.. Kainatomia: an old word for a new world, or, the de-contestation of
- a political and contested concept. Disponível em: http://www.csiic.ca/PDF/Old-New.pdf. Acesso em: 19 jul. 2021.
- On Revenues, by Xenophon. [s.d.]. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/1179/1179-h/1179-h.htm. Acesso em: 19 jul. 2021.
- O QUE É INOVAÇÃO? Direção: Ricardo Ruiz. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5ZJnxtuwVO8. Acesso em: 19 jul. 2021.
- Reforma trabalhista reduziu renda, não gerou emprego e precarizou trabalho. [s.d.]. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2018/11/11/reforma-trabalhista-reduziu-renda-nao-gerou-emprego-e-precarizou-trabalho. Acesso em: 19 jul. 2021.
- Reforma trabalhista reduziu renda, não gerou emprego e precarizou trabalho. [s.d.]. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2018/11/11/reforma-trabalhista-reduziu-renda-nao-gerou-emprego-e-precarizou-trabalho. Acesso em: 19 jul. 2021.
- AUTOGERECIAMENTO SUBORDINADO: CURTA-METRAGEM SOBRE A PRECARIZAÇÃO E UBERIZAÇÃO DO TRABALHO. Direção: [s.l: s.n.] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p1LU2Kj_cR8. Acesso em: 19 jul. 2021.
- VIDAS ENTREGUES (DELIVERED LIVES - COM LEGENDAS EM INGLÊS). Direção: [s.l: s.n.] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cT5iAJZ853c. Acesso em: 19 jul. 2021.
- PANDELIVERY - QUANTAS VIDAS VALE O FRETE GRÁTIS ? Direção: [s.l: s.n.] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yBD0VJLh9p8. Acesso em: 19 jul. 2021.
- SEU TRABALHO SERÁ UBERIZADO. Direção: [s.l: s.n.] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oTZLnM9-RvQ. Acesso em: 19 jul. 2021.
Texto originalmente publicado no blog Amanajeh, braço editorial do projeto Noisetupi.