PTEN

This essay is preserved in its original Portuguese. The navigation remains available in English.

Arquivo / Amanajeh · 05.07.2021

A inovação tecnológica pelo viés do movimento software livre

Imagem de capa do texto

POR RICARDO A. PALMIERI - 05 DE JULHO DE 2021.

fonte imagem da capa: azquotes.com

“Um caracol, após adicionar vários anéis alargados à delicada estrutura de sua concha, de repente interrompe suas atividades habituais de construção. Um único anel adicional aumentaria o tamanho da concha dezesseis vezes. Em vez de contribuir para o bem-estar do caracol, sobrecarregaria a criatura com um excesso de peso que qualquer aumento em sua produtividade seria doravante literalmente superado pela tarefa de lidar com as dificuldades criadas pelo alargamento da concha além dos limites estabelecidos por seu propósito. Nesse ponto, os problemas de crescimento excessivo começam a se multiplicar geometricamente, enquanto a capacidade biológica do caracol pode, na melhor das hipóteses, ser estendida aritmeticamente."

Ivan Illich

[mídia externa do texto original: https://drive.google.com/file/d/1dS_pAN87V5VHWmMUi8M7YZsSzUywbm5B/preview]

ouça o texto. tempo estimado: 13min.

[mídia externa do texto original: https://www.youtube.com/embed/oYAQd8JSyYo?controls=0]

Milton Santos, Bauru, 1997 - “O consumo hoje, é o grande fundamentalismo”

#paracegover: um homem negro com óculos, em uma tribuna de madeira com um microfone de mesa á sua frente dando uma palestra, brada que o consumo hoje é o grande fundamentalismo.




Os processos de inovação tecnológica tendem a reforçar posições dominantes de mercado, cerceando os acessos a recursos e benfeitorias sociais para setores específicos da sociedade. Se por um lado, o acesso à inovação tecnológica facilita o cotidiano de boa parte da população, por outro quem não possui meios de obter este tipo de artifício acaba sendo forçado a viver em situações onde seu bem-estar é comprometido, e muitas vezes, suas relações laborais acabam sendo limitadas (Pansera & Fressoli, 2020).

Na busca por lucros incessantes, a maioria das ações voltadas à inovação tecnológica acabam por fechar seus desenvolvimentos de forma a criar tanto a dependência de seus consumidores por conta de suas facilidades, quanto a obsolescência programada dessas soluções. Assim, constitui-se uma parcela da sociedade extremamente dependente do consumo dessas formas de fazer, e garante-se a recorrência de receita com a obtenção de novas versões ou novos produtos, visto que o reparo dessas tecnologias precisa ser realizado por quem as desenvolveu. Mas, como romper estes ciclos, tanto de consumo de soluções hegemônicas exclusivas, quanto de reposição de produtos que são mais baratos de adquirir do que reparar?

Apoiado no artigo “Innovation without growth: Frameworks for understanding technological change in a postgrowth era” de Mario Pansera e Mariano Fressoli, este ensaio busca, partindo de um recorte específico sobre as linhas abordadas no artigo original, expandir as reflexões propostas pelos autores, aprofundando o debate sobre o movimento software livre, como parte da temática "produção colaborativa e aberta", exposta no texto base.

O movimento software livre destaca-se como uma possibilidade de ação com viés de pós-crescimento, sendo considerado um movimento social. Primeiramente por romper a hegemonia tecnológica diretamente ligada à ideia de que só existe uma forma de resolver algum tipo de problema. Segundo que, por trazer em seu conceito principal o ideal de código aberto (open source é o termo utilizado pelos seus entusiastas), estimula em seus métodos que várias gerações de pesquisadores utilizem o conhecimento acumulado e compartilhado para a criação de variantes e melhorias das tecnologias digitais.

[mídia externa do texto original: https://www.youtube.com/embed/prmXomFs5FI?controls=0]

O sistema educacional a partir da visão de Ivan Illich.



 Além destes dois aspectos chave, a possibilidade de recriar ou modificar o uso original dessas criações através de licenças abertas rompe com a tradição do modelo cartesiano de propriedade intelectual protegida por copyright. Através de formas alternativas de licenciamento de obras como o Creative Commons, é possível criar o empoderamento de uma parcela da sociedade que não possui recursos ou que estão sob algum tipo de restrição econômica ou institucional em seu trabalho criativo.

Como forma de organizar esse empoderamento social, em 1985 foi fundada a Free Software Foundation (FSF), instituição criada por Richard Stallman com o intuito de eliminar as restrições sobre cópias, estudos e modificações de programas de computadores. Stallman, vale ressaltar, é peça chave no contexto da reflexão proposta neste ensaio. Além da FSF, ele é um dos ativistas fundadores do movimento software livre e do projeto GNU/Linux, que deu origem aos sistemas operacionais Ubuntu, Debian, Red Hat, entre outros. 

[imagem externa do texto original indisponível offline]

logomarca da FSF

#paracegover: logomarca com letras vermelho sangue sobre fundo branco escrito free software foundation



Ainda com a FSF, a criação da licença Creative Commons (CC) abriu um novo campo de possibilidades, extrapolando a ideia do software livre - que restringe-se às questões abstratas e matemáticas, para o campo do hardware livre. Com base na licença CC, nasceu em 2004, no Instituto de Design Interativo em Ivrea, Itália, o projeto Arduino. Uma pequena placa com um microcontrolador programável (e reprogramável), que permite a prototipagem rápida de projetos que envolvam software e componentes eletrônicos. Através de instruções dadas via software, recepção de dados por sensores, e geração de controles externos através de atuadores, o Arduino opera como um facilitador abrindo a caixa da chamada computação física

Esse projeto, por ter sua licença aberta e baixo custo de aquisição ou criação de réplicas, permitiu que estudantes, hobistas e curiosos em geral tivessem acesso a conhecimentos que antes eram exclusivos de pesquisadores das áreas da engenharia. Atualmente, conta com uma comunidade de usuários em todos os cantos do planeta, mais de duas dezenas de versões da placa, além de quase uma centena de clones comercialmente disponíveis no mercado. Podemos afirmar que a criação do arduino possibilitou a popularização de diversos outros movimentos culturais, entre eles o movimento Maker, a construção de robôs e as impressoras 3D.



[imagem externa do texto original indisponível offline]

projeto Paperduino de Guilherme Martins

#paracegover: placa eletrônica feita à mão sobre fundo branco



Outro fenômeno atual que surge indiretamente das atividades de Richard Stallman, é o sistema operacional utilizado por 70% dos donos de aparelhos celulares no mundo: o Android. Desenvolvido pela Google com base no kernel do projeto GNU/Linux, o sistema operacional é utilizado por diversos fabricantes de equipamentos de telefonia celular, televisores, relógios entre outros dispositivos inteligentes. Apesar de seu kernel (ou o núcleo do sistema operacional, responsável pelo elo entre o software e o hardware) ter como base o sistema desenvolvido por Stallman e Linus Torvalds, há um debate enorme na área do desenvolvimento de sistemas sobre o Android ser ou não um sistema GNU/Linux. De qualquer modo, é possível ver tanto nas apresentações das equipes de desenvolvimento da Google, quanto em entrevistas com Torvalds, que tendo ou não a mesma base lógica, a tendência desses dois universos é a de estarem cada vez mais unidos.



[imagem externa do texto original indisponível offline]

Android 11 - foto divulgação de samsung.com

#paracegover: cinco capturas de telas da interface do sistema operacional android 11, com tons de azul e roxo, menus de comunicação e seus novos ícones.





Nesse ponto, podemos criar o questionamento de como as correntes de crescimento econômico se apropriam dos resultados propiciados pelos ideais do movimento software livre. Tanto no caso do Arduino quanto do sistema Android, as versões comerciais disponíveis nos mercados costumam incluir extensões ou simplificações que facilitam a utilização para seus consumidores. Estas extensões, desobrigam seus utilizadores de compreenderem o que está por trás daquele mecanismo, trazendo de volta à cena, a comodidade de ter a solução pronta, sem compreender como ela resolve o problema. Desta forma, o ciclo do consumo por comodidade discutido no ensaio “Desbravando a ideia de decrescimento” volta a ser observado.

Como essência, a ideia de software livre defende o conhecimento compartilhado e a distribuição dos saberes, rompendo com a lógica das chamadas caixas pretas. A partir do momento que um indivíduo possui o conhecimento sobre o funcionamento de um artefato tecnológico digital, ele é capaz de modificar, reparar ou até mesmo reconstruir este dispositivo. 

Mais uma vez aqui, chegamos ao ponto do debate onde o compromisso ético acerca das idéias de crescimento a qualquer custo versus a difusão dos conceitos de pós-crescimento orientado nos faz refletir. Por um lado, a continuidade dos processos como Peter Drucker diria - “Inovar ou morrer!”, na busca por fazer mais do mesmo, em prol da geração de lucros, sem medir as consequências inter ou transdisciplinares envolvidas. Por outro lado, entender o potencial de inovação atrelado à corrente da democratização do acesso ao conhecimento, garantindo que os saberes sejam compartilhados na busca por soluções não hegemônicas para problemas reais das sociedades.

Por qual caminho você escolhe inovar?





[mídia externa do texto original: https://www.youtube.com/embed/a2ypdwoRVNs?controls=0]

entrevista com Mario Pansera






Referências:




PANSERA, Mario; FRESSOLI, Mariano. Innovation without growth: Frameworks for understanding technological change in a post-growth era. Organization, [S. l.], v. 28, n. 3, p. 380–404, 2021. DOI: 10.1177/1350508420973631.

IGNATIUS, Adi. Innovation on the Fly. Harvard Business Review, [S. l.], 2014. Disponível em: https://hbr.org/2014/12/innovation-on-the-fly. Acesso em: 5 jul. 2021.

VAUGHAN-NICHOLS, Steven J. Linus Torvalds on Android, the Linux fork. [s.d.]. Disponível em: https://www.zdnet.com/article/linus-torvalds-on-android-the-linux-fork/. Acesso em: 5 jul. 2021.

FERNÁNDEZ, Covadonga. The Origins of the Maker MovementOpenMind, 2015. Disponível em: https://www.bbvaopenmind.com/en/technology/innovation/the-origins-of-the-maker-movement/. Acesso em: 5 jul. 2021.

How to Make a Big 3D Printer at Home Using Arduino. [s.d.]. Disponível em: https://create.arduino.cc/projecthub/DesiEngineer/how-to-make-a-big-3d-printer-at-home-using-arduino-4a7b79. Acesso em: 5 jul. 2021.

Arduino - Home. Disponível em: https://www.arduino.cc/. Acesso em: 5 jul. 2021.

Texto originalmente publicado no blog Amanajeh, braço editorial do projeto Noisetupi.

← Voltar ao arquivo