PTEN

This essay is preserved in its original Portuguese. The navigation remains available in English.

Arquivo / Amanajeh · 05.06.2021

Desbravando a ideia de Decrescimento

Imagem de capa do texto

“.. um homem que sabe que o mundo não é herdado de seus pais, mas emprestado de seus filhos”
Wendell Berry

08 de junho de 2021. Por Ricardo A. Palmieri.

O cotidiano de qualquer ser humano é tomado diariamente por tarefas e rotinas mais ou menos agradáveis, e que geram mais ou menos sensações de conforto. Nos hiatos entre sensações positivas ou não, encontrar pequenos mimos para nivelar a satisfação pessoal parece extremamente necessário. Contudo, esses prazeres que amenizam a sobrevivência humana em meio às nuances de caos e controle no dia-a dia, passam obrigatoriamente pela ideia de consumir. Seja consumir algum tipo de bem, de serviço ou de solução, que obrigatoriamente utilizam algum tipo de energia em seu processo de produção.

O marketing e a publicidade detém um papel social de convencer as pessoas de que os conceitos de felicidade e consumo estão diretamente conectados. Com um bombardeio de imagens, frases de efeito e estímulos generalizados, a sociedade passa a acreditar que comercializar o tempo de vida dos seus indivíduos em troca da possibilidade de consumir é o que garante seus níveis de felicidade, satisfação ou realização pessoal.

   

[mídia externa do texto original: https://giphy.com/embed/4ZtY6pvsG2HdtPSKiS]

Obedeça, consuma, pense. retirado de giphy.com

Esse papel social tomado pelo marketing e pela publicidade está diretamente relacionado à ideia de que um estado-nação de sucesso, possui seu Produto Interno Bruto com índice elevado. E logo, para se obter um PIB com indicadores altos, é necessário uma sociedade com grande potencial de consumo e produção de bens e serviços. Temos aqui uma espécie de mecanismo que entrega por um lado indicadores e números relacionados ao crescimento de consumo e produção, e pelo lado oposto é alimentado com o tempo de vida das pessoas.

Na década de 70, o jornalista André Gorz, tomando como base o livro do economista Nicholas Georgescu-Roegen “The Entropy Law and the Economic Process” cunhava o termo Decrescimento, contrapondo o fundamento da economia tradicional de que o crescimento constante do PIB teria como consequência uma melhoria da qualidade vida à sociedade como um todo e portanto, deveria ser uma busca constante das nações-estados capitalistas.

O fundamento conceitual do Decrescimento está na ideia de que o crescimento constante não pode ser suportado pelo ecossistema global. Essa necessidade de produção constante teria como consequências o esgotamento dos recursos energéticos (como petróleo, gás, urânio e carvão), a diminuição do valor das matérias-primas, uma enorme degradação ambiental (através do efeito estufa, aquecimento global e excesso de poluição), a degradação da flora, fauna e da saúde humana, além de um aumento no padrão de vida dos países localizado no hemisfério norte em relação aos do hemisfério sul, principalmente nas questões de transporte, saneamento básico e alimentação.

Esse conceito, quando comparado com a evolução dos fatores colocados por Gorz há quase 50 anos, desmascara algumas falácias que o crescimento econômico ainda tenta consolidar. Trazendo o prefixo “sustentável”, os defensores do crescimento do PIB tentam emplacar frases como “o crescimento econômico é infinito”, “a extração de recursos naturais pode ocorrer livre de esgotamento” ou “o crescimento econômico aumenta o bem-estar social” (BANERJEE, et al., 2020). Argumentos que, quando confrontados com a realidade socioambiental do planeta, caem por terra.

Para entendermos na prática como é totalmente discrepante da realidade esta relação entre crescimento do PIB e aumento do bem-estar social, neste primeiro quadrimestre de 2021 o PIB brasileiro apresenta (Boletim Macrofiscal do Ministério da Economia, 2021) uma projeção de crescimento de 3,2% para 3,5%. Em números totais, o PIB brasileiro no primeiro trimestre de 2021 foi de R$2 trilhões, anunciando um PIB per capita de R$33.593,82, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo que, em meio à crise sanitária da COVID-19, o país registra um índice crescente de mortalidade pela doença, com número estimado de 227,8 mil pessoas somente entre 1.o de janeiro e a última semana do mês de maio deste ano, segundo relatório do Ministério da Saúde. Este exemplo demonstra claramente o distanciamento existente entre as métricas de sucesso utilizadas pelos entusiastas da sociedade de consumo ilimitado, e a realidade vivenciada pela totalidade da sociedade.

[mídia externa do texto original: https://www.youtube.com/embed/RVz4bVn1s4Q]

até que ponto o pib vai refletir no bem-estar da população? retirado de youtube.com

Mas então, quais são os caminhos que devem ser tomados em busca de uma evolução realmente sustentável? Será que a máxima de Ulrich Beck “pensar global e agir local” ainda é válida? Como romper com os atuais padrões de consumo e produção existentes em nossa sociedade?

Voltando à ideia de Decrescimento, o economista francês Serge Latouche aponta em seus artigos alguns caminhos possíveis em direção a esse rompimento. Para Latouche, (apud BANERJEE, et al., 2020, p. 7),  Decrescimento não se trata somente de uma teoria em particular, e sim de uma "granada mundial" ou uma "palavra míssel", que tem o objetivo de criar novas visões de transformações sociais, ecológicas e econômicas, um "slogan político com implicações teóricas".

Outros caminhos possíveis são apontados por diversos pensadores estudiosos do tema ao redor do mundo. Exemplos como o repensar da acumulação frente à redistribuição de renda, transformar as agendas extrativistas em ações de restauração do meio ambiente, remodelar a atual cultura da competição pela ideia da cooperação e principalmente, agir de modo a transmutar nosso cotidiano baseado em consumismo exacerbado em alternativas que permitam o verdadeiro bem-viver.

[mídia externa do texto original: https://www.youtube.com/embed/R66ydkGstfI]

entrevista com Pepe Mujica realizada pela DeutscheWelle. retirado do youtube.com

E o que realmente pode-se fazer, a partir dos aprendizados trazidos pela pandemia de 2020/2021? Na esfera política, cobrar dos governantes - principalmente no momento da decisão através do voto democrático, propostas de políticas que priorizem esses tópicos em suas plataformas de governo. Em termos econômicos, estabelecer uma cultura de consumo coletiva e ativista baseada no compartilhamento, reuso, conserto, restauros e reciclagem. Estas ações podem desencadear mudanças frente às estratégias de obsolescência programada dos fabricantes de produtos, transformando as demandas e as preferências do consumidor. E de forma individual, sair do piloto automático em busca de outras formas de felicidade, cuidando de forma consciente dos nossos hábitos de consumo.

[mídia externa do texto original: https://www.youtube.com/embed/ChclL1naMvY]

documentário sobre decrescimento e o mito da Abundância. retirado de youtube.com 

Referências:

  • BANERJEE, S. B., JERMIER, J. M., PEREDO, A. M., PEREY, R., & REICHEL, A. (2020). Theoretical perspectives on organizations and organizing in a post-growth era. Organization, 28 (3), 337-357.
  • BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2011.
  • BERRY, Wendell. The Unforeseen Wilderness: An Essay on Kentucky’s Red River Gorge, 1971. Photographs by Gene Meatyard, Chapter 2: The One-Inch Journey, Start Page 11, Quote Page 26, The University Press of Kentucky, Lexington, Kentucky.  
  • AZEVEDO, W. F. DE. O coronavírus e o decrescimento. Artigo de Serge Latouche. 26 set. 2020. Disponível em:<http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/603214-o-coronavirus-e-o-decrescimento-artigo-de-serge-latouche>. Acesso em: 2 jun. 2021.
  • Projeção de crescimento do PIB em 2021 passa de 3,2% para 3,5%. 18 maio 2021. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2021-05/projecao-de-crescimento-do-pib-passa-de-32-para-35>. Acesso em: 4 jun. 2021.
  • Apresentação - Boletim Macro Fiscal da SPE Conjuntura Econômica e Perspectivas para 2021 (18/05/2021) - Português (Brasil). Disponível em: <https://www.gov.br/economia/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/boletim-macrofiscal/2021/apresentacaosachsidaboletimmacrofiscalmaio2021.pdf/view>. Acesso em: 4 jun. 2021.
  • Número de mortes por data real por covid em 2021 já supera o de 2020 inteiro. 28 maio 2021. Disponível em: <https://www.poder360.com.br/coronavirus/numero-de-mortes-por-data-real-por-covid-em-2021-ja-supera-o-de-2020-inteiro/>. Acesso em: 4 jun. 2021.
  • We Do Not Inherit the Earth from Our Ancestors; We Borrow It from Our Children – Quote Investigator. , 22 jan. 2013. Disponível em: <https://quoteinvestigator.com/2013/01/22/borrow-earth/>. Acesso em: 2 jun. 2021.
  • Até que ponto o crescimento do PIB vai refletir no bem-estar da população? , 2 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=RVz4bVn1s4Q>. Acesso em: 4 jun. 2021.
  • Consciência Sul: o mundo por José Mujica - A felicidade como parâmetro. , 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=R66ydkGstfI>. Acesso em: 2 jun. 2021.
  • DECRESCIMENTO: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ChclL1naMvY>. Acesso em: 2 jun. 2021.

Texto originalmente publicado no blog Amanajeh, braço editorial do projeto Noisetupi.

← Voltar ao arquivo