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Arquivo / Amanajeh · 20.06.2021

Uma abordagem transdisciplinar para o Decrescimento

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POR RICARDO A. PALMIERI - 21 DE JUNHO DE 2021.

fonte imagem da capa: Getty Images

Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

José Saramago

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#paracegover: gif animado com quadros piscantes, alternando textos em preto e fundo branco escrito fascism, colonialism, capitalism e imperialism. na parte de baixo a hashtag #ism.

Através de uma revisão bibliográfica sobre o conceito de Decrescimento, o artigo “Organizing degrowth: The ontological politics of enacting degrowth in OMS” de James Scott Vandeventer e Javier Lloveras demonstra como o tema tem sido alvo de uma enorme disputa de narrativas dentro do meio acadêmico. Mesmo com as crises expostas pela ontologia do assunto - como a iminência de uma sexta extinção em massa, a caótica situação climática, a exploração e desigualdade desenfreadas, o considerável aumento na frequência de pandemias e o crescimento do etnonacionalismo, do racismo e da violência nas sociedades, a criação de recortes específicos para abordar o Decrescimento surge como estratégia de apropriação do tema, para um possível esvaziamento e controle do uso do termo.

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#paracegover: sob um céu azul, um homem preto em uma manifestação, usando máscara na boca mostra uma placa branca com letras pretas escrito "racismo é um vírus".


Disputas de narrativa são acontecimentos comuns na história das sociedades. Com a máxima de quem ganha a guerra é quem escreve a história, esta luta pelas narrativas serve de matéria-prima para a construção do denominado “mercado das ideias” (CHOMSKY & HERMAN, 1988). Partindo daí, é possível compreender que dominar o entendimento sobre um conceito mais complexo, estabelecendo uma versão para sua definição - e por consequência esvaziar ou restringir sua ontologia - gera limitações na forma de ver o contexto como um todo.

“A agenda imposta pelos interesses do sistema financeiro e das grandes corporações busca ocupar o centro do debate político com temas que não questionam sua hegemonia e seus interesses.”

Silvio Caccia Bava


Diante destas disputas, analisar conceitos à luz da Teoria Crítica, permite compreender de forma mais contextualizada os desdobramentos que tais esvaziamentos podem representar na vida cotidiana de qualquer indivíduo. No caso das ideias embutidas na ontologia do Decrescimento, moldar seu significado realizando recortes que potencialize as estratégias de consumo em nossa sociedade, pode “catalisar transformações que contribuem para sua diluição, seguindo um destino semelhante às noções de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável”, e desta forma seguir “tornando o Decrescimento um objeto acionável em diferentes contextos políticos” (VANDEVENTER & LLOVERAS, 2021, p.15). 

Outra forma de analisar o Decrescimento é através da transdisciplinaridade. Por se tratar de um conceito que aborda diferentes disciplinas como ecologia, economia, antropologia, sociologia, política econômica, entre outras, focar na ideia de Decrescimento de forma inter, pluri ou multidisciplinar pode eventualmente ofuscar aspectos que envolvam sobreposições e metodologias próprias de cada disciplina. A transdisciplinaridade surge com a necessidade de um pensamento que atravesse e ultrapasse o domínio de disciplinas, e consequentemente, e áreas específicas do conhecimento como forma de fazer, frente à complexidade de nosso mundo contemporâneo.  

Na Carta da Transdisciplinaridade (FREITAS et. al, 1994), escrita no Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade no Convento de Arrábida, Portugal, em 1994, aponta-se como pilares da transdisciplinaridade três pensamentos derivados dos estudos de seus autores: a Teoria da Complexidade (MORIN, 2000), a Lógica do Terceiro Incluído (LUPASCO, 1951) e os Diferentes Níveis de Realidade (NICOLESCU, 2005). Com estes pilares, se torna possível analisar de forma mais completa, e por conseguinte mais complexa e sistêmica, o conceito de Decrescimento. 

Ao utilizarmos métodos e saberes que extrapolam as tradições criadas dentro de cada área do conhecimento, de modo integrado, a forma de ler e entender os conceitos, as práticas e seus  desdobramentos se expandem. Nessa ótica, não há sentido lógico em recortar conceitos complexos com a finalidade de justificar práticas específicas, desconsiderando seus resultados fora do campo de estudo proposto. Afinal, dentro de um processo transdisciplinar não deve se dar como fechado um tema, um escopo, uma questão ou um objeto de pesquisa, devendo este processo estar sempre aberto às incompletudes e possíveis falhas de um pesquisador ou de uma equipe (HERRÁN, 2013). 

Deste modo, podemos concluir que na era da pós-verdade, a relativização da construção da verdade científica provisória (hipótese) pode ocorrer mesmo dentro dos centros de produção científica. É preciso estar não somente “atento e forte”, mas também manter cada vez mais em pé as antenas da curiosidade e da vigilância sobre o fazer científico. 

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E acima de tudo, atentar para o fato de que a busca por caminhos inter, pluri e multidisciplinares pode não estar mais dando conta de encontrar respostas e definições exatas dentro das caixas e compartimentos dos conhecimentos em disciplinas únicas. Traçar rotas de estudo que vão além dos métodos estabelecidos e fechados em áreas específicas do conhecimento, se torna um dever ético do pesquisador de qualquer área científica.

Referências:

  • VANDEVENTER, James Scott; LLOVERAS, Javier. Organizing degrowth: The ontological politics of enacting degrowth in OMS. Organization, v. 28, n. 3, p. 358–379, 2021. DOI: 10.1177/1350508420975662.
  • BAVA, Silvio Cassa. A guerra das ideias: a disputa das narrativas - Le Monde Diplomatique. 8 de março de 2016. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-guerra-das-ideias-a-disputa-das-narrativas/. Acesso em: 20 jun. 2021.
  • CHOMSKY, N. e HERMAN, E. S.. Manufacturing Consent.  The Political Economy of the Mass Media.  New York: Pantheon Books. 1988.
  • CABRAL, João Francisco Pereira. "Teoria Crítica e seus principais pensadores"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/teoria-critica-seus-principais-pensadores.htm. Acesso em 20 de junho de 2021.
  • HORKHEIMER, M. & ADORNO, T.. Filosofia e teoria crítica. In W. Benjamin et al. Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
  • NICOLESCU, Basarab. A evolução transdisciplinar da universidade – Condição para o desenvolvimento sustentável. Disponível em: http://perso.clubinternet.fr/nicol/ciret/bulletin/12/b12cgpor.htm. Acesso em 10 fev. 2021.
  • MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand, 2000. 
  • NICOLESCU, B.. O Manifesto da Transdisciplinaridade. Triom, São Paulo, 2005. 
  • LUPASCO, Stéphane. Le principe d’antagonisme et la logique de l’énergie:
  • prolégomènes à une science de la contradiction. Paris: Hermann & Cie, 1951.
  • PIAGET, Jean. L’épistémologie des relations interdisciplinaires. In: APOSTEL, L. et al. (Ed.). L’interdisciplinarité: Problèmes d’enseignement et de recherche. Paris: Centre pour la Recherche et l’Innovation dans l’Enseignement; Organisation de Coopération et de développement économique, 1972. p. 131-144.
  • SOMMERMAN, AMÉRICO. Inter ou transdisciplinaridade?: da fragmentação disciplinar ao novo diálogo entre os saberes. Paulus, 2006.
  • FREITAS, Lima de, MORIN, E., NICOLESCU, B.. Carta da Transdisciplinaridade. PRIMEIRO CONGRESSO MUNDIAL DA TRANSDISCIPLINARIDADE. Portugal, Convento de Arrábida, 1994. Dísponível: http://cetrans.com.br/assets/docs/CARTA-DA-TRANSDISCIPLINARIDADE1.pdf. Acesso em 10 fev. 2021.
  • HERRÁN, A.. ¿Una transdisciplinariedad inmadura? Consideraciones críticas radicales (pensando desde la Pedagogía y la Didáctica). In J. Paredes, F. Hernández & J. M. Correa (Ed.), La relación pedagógica en la universidad, lo transdisciplinar y los estudiantes: desdibujando fronteras, buscando puntos de encuentro. Madrid: Universidad Autónoma de Madrid. 2013.

Texto originalmente publicado no blog Amanajeh, braço editorial do projeto Noisetupi.

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